European Robin from Darren Bellarby

Migração outonal

Outubro. O mundo das aves está em mudança.

16 Out , 2015  

Tiramos a manta de inverno do armário, e queixamo-nos que não estamos prontos para deixar o Verão. Começamos a esquecer as praias, mas talvez ainda seja cedo para pensar em lareiras e aquecedores. Já se sente no ar a melancolia da estação, mas a luz do final de tarde tem uma beleza quente e reconfortante. A parte de nós que ainda é comandada pelo mundo natural acompanha esta transição, a qual que pode ser verificada nos movimentos das aves.

Ao longo do mês de Outubro, ocorre uma das mais notórias e simbólicas transformações no elenco de aves em trânsito pelo território Português. Enquanto a maioria dos migradores transcontinentais se encontra já para além do Sahara (a maioria passou em Agosto e Setembro), intensificam-se os movimentos de aves que chegam ao nosso país para passar o inverno. Oriundas de latitudes mais a norte, estas são aves migradoras que descem até cá em busca de alimento, bem essencial que começou entretanto a escassear nos seus territórios de nidificação.

Os pequenos migradores ainda presentes em maior número são a Felosa-musical Phylloscopus trochilus e o Papa-moscas-preto Ficedula hypoleuca, mas ainda é possível observar os últimos Cartaxo-nortenhos Saxicola rubetra e Toutinegras-de-bigodes Sylvia cantillans, assim como uma ou outra espécie mais esquiva como a Sombria Emberiza hortulana. Estes derradeiros viajantes transaharianos partirão em breve para tirar partido do boom de alimento disponível na África tropical, após o final da época das chuvas.

Felosa-musical em arbusto na Ponta da Atalaia, Sagres. Nuno Barros

Felosa-musical em arbusto na Ponta da Atalaia, Sagres. Nuno Barros

Por cá, começam-se a observar outras aves (das quais muitos de nós já tínhamos saudades) que associamos aos meses de inverno, e ao conforto e beleza que os próximos meses nos irão proporcionar. Porém a maioria das espécies características do nosso inverno não são exclusivamente migratórias. Muitas delas são residentes no Sul da Europa e migradoras no Norte e Centro da sua distribuição. Assim, por esta altura, populações migradoras de muitas espécies partem para Sul, juntando-se assim às nossas populações residentes. É o caso por exemplo de alguns tordos, fringilídeos (pintassilgos, tentilhões e outros), trigueirões e tantas outras.

Devido à sua localização geográfica e topografia, a Costa Sudoeste e a península de Sagres em particular, constituem um eficaz “barómetro” para avaliar os movimentos de aves migradoras.

A 04 de Outubro, após as primeiras chuvas do Outono, observei em Sagres as primeiras Felosinhas Phylloscopus collybita e Toutinegras-de-barrete-preto Sylvia atricapilla da estação (2 das espécies mais abundantes em Portugal no período de invernada), recém-chegadas durante a noite. Estavam pousadas nos mesmos arbustos que no dia anterior acolhiam apenas Felosas-musicais e Papa-moscas-cinzentos Muscicapa striata (2 das espécies mas emblemáticas de migradores de passagem), aves que partiram na mesma noite.

Toutinegra-de-barrete-preto. Ron Knight.

Toutinegra-de-barrete-preto. Ron Knight.

A 06 de Outubro, observei os primeiros Ostraceiros Haematopus ostralegus a alimentarem-se ao crepúsculo na Praia de Monte Clérigo, onde iriam pernoitar – um grupo de 3 aves. No pico do Inverno este pequeno dormitório pode albergar mais de 70 aves.

A 08 de Outubro observei novamente Abibes Vanellus vanellus – também conhecidos por “Ave-fria” por anunciar a chegada do tempo frio – sobre os campos em redor do Cabo S. Vicente, um tímido bando de 5 aves. Nos meses de Inverno esta será uma das aves mais abundantes dos nossos prados e pastagens.

Intensificam-se por estes dias os movimentos de chegada de alvéolas-brancas Motacilla alba, e nas zonas mais arborizadas, o chamamento do Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula começa a estar cada vez mais presente.

Esta transição nos movimentos de aves em Sagres, faz-se igualmente notar no elenco de aves de rapina em passagem pela península. Ainda se registam bastantes Águias-calçadas Aquila pennata, assim como os últimos Milhafres-pretos Milvus migrans do ano, no entanto o número de Águias-cobreiras Circaetus gallicus e Águias-d’asa-redonda Buteo buteo – migradores tardios – começa a aumentar. Por estes dias acontece também um dos mais emblemáticos movimentos de aves por estas bandas – a chegada dos primeiros bandos de Grifos Gyps fulvus do Outono.

Migrating Griffon Vultures

Grifos, Sagres. Nuno Barros

Outubro é um mês de abundância e diversidade, e uma época fascinante para os observadores de aves, mas mais ainda está para vir. Aqui no “fim do mundo” as aves chegam e partem continuamente, anunciando e celebrando a constante transformação do mundo natural.

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