IMG_20170212_103341034

Sensibilização ambiental

Em Lagoa, pelas aves e Alagoas

13 Fev , 2017  

Mesmo às portas da cidade de Lagoa, ao lado de um hipermercado, subsiste timidamente a última testemunha do que outrora foi um complexo de áreas alagadiças e lagoas de água doce. Uma área que deu nome à cidade e ao concelho.

Este último espelho de água é conhecido localmente como Alagoas Brancas, uma lagoa temporária com zonas de caniçal, onde diversas espécies de aves aquáticas se alimentam e pernoitam, especialmente durante o Inverno.
E já não restam muitos espaços como este no Algarve.

A espécie-bandeira deste local é o Íbis-preto. Algumas dezenas ou mesmo centenas de aves desta espécie – que até há pouco era rara em Portugal – encontram refúgio nas Alagoas Brancas, ao lado de Colherereiros, Garças-brancas, Carraceiros, Pernilongos, Marçaricos-de-bico-direiro, Frisadas, Patos-colhereiros e muitos outros.

Íbis-pretos. Michele Lamberti.

Íbis-pretos. Michele Lamberti.

O lugar encontra-se abrangido pelos planos de urbanização de Lagoa, e como tal, o loteamento e construção são tecnicamente permitidos.

E assim foi. De um dia para o outro, as máquinas avançaram e começaram a cobrir a lagoa de entulho, escavacaram as margens e destruiram caniçal. Parece que vai aqui avançar um novo hipermercado Continente, numa rua que já conta com 4 grandes superfícies – Apolónia, Intermarché, Pingo Doce e Aldi. Neste momento, apenas resta a zona central da lagoa.

Nuno Barros

Nuno Barros

No entando um grupo de cidadãos liderado por Carl Hawker – um inglês há muito radicado em Portugal – organizou-se, espalhou a palavra, e conseguiu com que a obra fosse suspensa por falta de algumas licenças.

Com uma manifestação pacífica agendada para o passado domingo de manhã, e já com a obra embargada, os trabalhadores tentaram vedar totalmente a área mas foram parados a tempo, pelo que a destruição ainda se encontra à vista de todos.

Alagoas Brancas parcialmente soterrada. Nuno Barros

Alagoas Brancas parcialmente soterrada. Nuno Barros

Por isso numa chuvosa manhã de domingo, mais de 100 pessoas acorreram ao local para dizer que não precisam de um 5º hipermercado na mesma rua, para pedir que a obra seja travada e que a Câmara de Lagoa converta a área num espaço de interpretação da Natureza, que permita a visitação da área natural e possibilite a educação ambiental.

O que os protestantes defendem é meramente que a proximidade entre a lagoa e a cidade seja vista como uma mais-valia, e não como um entrave à expansão urbana. Agora – e como sempre – é tudo uma questão de vontade política.

Cordão humano pela lagoa. Nuno Barros

Cordão humano pela lagoa. Nuno Barros

É um estranho mundo este onde vivemos, onde este tipo de opiniões é minoritário, onde a Natureza perdeu o seu valor intrínseco, e as únicas regras do jogo são planos de ordenamento e licenças de construção.

A verdade é que no Algarve muitas outras áreas naturais destas características foram soterradas e destruídas no passado recente, sem ninguém ter protestado. Mas onde ontem não havia ninguém, hoje estiveram 100, e amanhã estarão 1000.

Porque num mundo antropocêntrico de planos e licenças, apenas com um número suficiente de pessoas uma questão ganha relevância política.

Nuno Barros

Nuno Barros

É uma coisa curiosa, a vontade política. As decisões são tomadas no sentido daquilo que é a percepção da vontade da maioria. Essa é a razão de a escolha do caminho menos percorrido exigir coragem. Mas as pessoas seguem e respeitam a coragem. E agora?

O “crescimento” infinito que nos vendem como barómetro do estado da nação é uma utopia que devemos questionar. Uma em que apenas loucos e economistas acreditam. O mundo não é infinito.

Há vários anos a percorrer o mundo por causas ambientais, Mark Hutchinson juntou-se aos manifestantes. Nuno Barros

Há vários anos a percorrer o mundo por causas ambientais, Mark Hutchinson juntou-se aos manifestantes. Nuno Barros

Uma palavra para o Carl e para a comunidade estrangeira residente, por estarem na linha da frente em mais uma batalha pelos valores naturais do Algarve. Após vidas inteiras de lamentos e queixas atrás de chávenas de café, nós Portugueses temos muito que aprender com seu sentido de urgência em defender o que acreditam.

Defenda a preservação do que é importante para si. E seja suficientemente consciente para saber o que o é.

Como pode ajudar:
Seguindo este link disponibilizado pela Almargem, pode enviar mensagens automáticas para os membros do governo e entidades responsáveis, subscrevendo uma posição pela preservação das Alagoas Brancas.

Nuno Barros

Nuno Barros


Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tours Birdland

Observação de Aves

Barlavento Algarvio

Saber mais

Turismo de Natureza

A Birdland é uma empresa de turismo licenciada
(RNAAT 569/2014)