Calendário NaturalO Sudoeste em mudança

Calendário NaturalA fauna e flora do Sudoeste encontram-se em constante transformação. As cerca de 250 espécies de aves que por aqui passam, apresentam um vasto leque de formas, elencos e rituais ao longo das estações. A remota Roda da Vida impulciona de um mundo natural em mudança, onde aves chegam, partem e cruzam as terras do Sudoeste. Se estiver atento, com a alma receptiva e o olhar perspicaz, não vai querer perder esta perspectiva, tão facilmente acessível como esquecida. Venha connosco numa pequena viagem – qualquer altura pode ser a indicada.

  • JAN - Cape S. Vincente. Nuno Barros
    Cabo S. Vicente. Nuno Barros

    Estamos no pico do Inverno, e no mês mais chuvoso do ano. No entanto, Janeiro pode ser um mês ameno com as temperaturas a variar entre os 5 e os 18 °C, e poderão haver vários dias agradáveis, com sol. As primeiras Andorinhas-das-chaminés aparecem nos céus, e começam-se a ver Amendoeiras em flôr. As primeiras flores silvestres irrompem nos campos. Tudo está calmo e vagaroso nas ruas, mas os campos estão repletos de visitantes oriundos do Norte, como Abibes, Lavercas e Petinhas-dos-prados. As áreas com mais vegetação estão apinhadas de Piscos-de-peito-ruivo, Toutinegras-de-barrete-preto, Fringilídeos e Tordos. Estas aves chegaram até nós dispersando para Sul no Outono, em busca de recursos alimentares. Nos planaltos costeiros da Costa Ocidental, alguns Sisões agrupam-se em pequenos bandos, esquivos. A escassa Águia-de-Bonelli inicia os seus vôos nupciais. Um ocasional Tartaranhão-azulado patrulha os matos arbustivos e campos abertos. As zonas húmidas costeiras albergam um grande número de aves aquáticas invernantes como Maçaricos-de-bico-direito, Pilritos-comuns, Pernas-verdes, Flamingos e Colhereiros. No litoral rochoso, alguns Ostraceiros alimentam-se na maré vazante, e os Alcatrazes começam a rumar a Norte sobre o mar revolto.

  • FEB - White Storks. Neil Mcmahon

    Ciconia ciconia. Neil Mcmahon

    O cenário de invernada observado no mês anterior, mantêm-se na sua generalidade no que à avifauna diz respeito. No entanto existem algumas alterações subtis. Os primeiros sinais óbvios de que a Primavera está aí podem ser detectados, à medida que as temperaturas começam timidamente a subir. As andorinhas estão a chegar e podem ser vistas regularmente, alguns outros migradores precoces atingem o Algarve, e as Cegonhas-brancas ocupam os seus ninhos. Irrompem as primeiras orquídeas silvestres, como a Orchis italica e a Orphys tenthredinifera. As flores silvestres estão agora um pouco por toda a parte. Algumas como a Silene corolata e a Scilla monophyllos cobrem já os campos. Tudo está prestes a mudar.

  • MAR - Woodchat Shrike. Michele Lamberti

    Lanius senator. Michele Lamberti

    É inegável – a migração de Primavera está em curso. Passeriformes, aves aquáticas e outros invernantes abandonam gradualmente o território, à medida que chegam os primeiros visitantes estivais. Em Março, aves que chegam oriundas dos seus locais de invernada na África tropical co-habitam com aves que estão em vias de partir para criar no Norte e Centro da Europa. Ventos persistentes de Este podem trazer até nós migradores provenientes de Gibraltar. Andorinhas, os primeiros Andorinhões, e outras aves como o Picanço-barreteiro já se encontram presentes. Nos campos, várias espécies de cistáceas estão em floração, e surgem muitas flores silvestres. Na Boca do Rio, chegam às superfície orquídeas como a Orchis speculum e a Orphys lutea. Os esquivos Melros-azuis cantam nas falésias e afloramentos. Os dias solarengos são agora frequentes, com temperaturas a subirem facilmente acima dos 20 °C. No entanto, a chuva e vento forte surgem quando menos se espera.

  • APR - European Bee-eater.  Ian White

    Merops apiaster. Ian White

    A maioria dos visitantes estivais vai chegando. Poupas e Abelharucos acrescentam cor à paisagem, já pontuada de flores silvestres. A maioria dos passeriformes, tanto os migradores como os residentes, estão agora bastante activos, fazendo-se notar. Estabelecer territórios e encontrar parceiros é o tema do momento nas aves e seus cantos. Nas áreas florestadas, Felosas-poliglotas e Felosinhas-ibéricas podem ser ouvidas, assim como Carriças, Fringilídeos, Toutinegras e Chapins. Esvoaçam várias espécies de borboletas. Campos e arbustos fervilham de vida. Limícolas oriundos da costa Africana Ocidental, efectuam paragens nas zonas húmidas. No mar, a maioria dos Alcatrazes adultos encontra-se já bastante longe, e as primeiras Cagarras planam sobre a superfície. Moleiros e Garajaus podem ser ocasionalmente vistos em direcção a Norte. De volta ao mundo das pessoas, com a Páscoa reabrem os estabelecimentos sazonais, e surgem os primeiros sinais de que o Verão em breve chegará ao Algarve.

  • MAY - Gum Cistus. Tiago Fernandes

    Cistus ladanifer. Tiago Fernandes

    Os dias são agora longos e quentes, mas o vento ainda sopra forte. As aves começam a ficar recolhidas nas horas de maior calor. À medida que chegam os migradores mais tardios, nascem as primeiras crias dos migradores mais precoces. O canto do Rouxinol ecoa nas noites calmas, e ao longo das ribeiras. Aves residentes como a Cotovia-montesina, o Cartaxo, a Toutinegra-de-cabeça-preta e o Pintarroxo andam atarefadas no matos costeiros. A sinfonia de cantos faz-se notar nos bosques, arbustos e sebes, especialmente durante as primeiras e últimas horas do dia. As encostas de Monchique estão repletas de flores silvestres e força vital. Os campos onde os Abibes e as Alvéolas-brancas se alimentavam há poucos meses, albergam agora Petinhas-dos-campos e Calhandrinhas. O aroma persistente da Esteva enche o ar com o sentimento de Primavera.

  • JUN Juvenile Stonechat Gidzy

    Saxicola torquatus. Gidzy

    À medida que a Primavera avança para dá lugar ao Verão, todos os migradores se encontram agora instalados. A temperatura continua a subir. O chamamento de Abelharucos e Andorinhões nas alturas pode ser ouvido ao longo de toda a estação. A maioria das aves está ocupada a alimentar as crias e os primeiros juvenis lançam-se para fora do ninho, abraçando um novo mundo – que agradece, revigorado. Nas zonas húmidas como a Lagoa dos Salgados ou a Ria de Alvor, Pernilongos, Borrelhos-de-coleira-interrompida e Andorinhas-do-mar-anãs, estão instalados para criar. A densidade populacional da zonas costeiras começa a aumentar, à medida que chegam os primeiros veraneantes.

  • JUL - Short-toed Eagle. Luis Jiménez Delgado

    Circaetus gallicus. Luis Jiménez Delgado

    As aves estão activas sobretudo às primeiras horas da manhã e ao final da tarde, resguardando-se nas restantes horas do dia. No sentido oposto, a partir do final da manhã, os visitantes humanos surgem em força. As ruas e praias estão agora mais densamente povoadas. Voando alto, rapinas como a Águia-cobreira patrulham o céu azul intenso. Andorinhões-pretos, pálidos, e reais caçam insectos silenciosamente sobre os montes, e juntam-se nas arribas costeiras da costa Oeste por horas dos quentes ocasos. No mar, as Pardelas-baleares voam para Norte para se concentrarem em áreas de abundância de pequenos peixes-pelágicos, onde aproveitam para efectuar a muda. As primeiras Gaivotas-de-cabeça-preta surgem nas lagoas costeiras. As Cegonhas-brancas abandonam os ninhos, e os primeiros Milhafres-pretos chegam à península de Sagres, num tímido sinal de que a época de migração se aproxima.

  • AGO _ Cory's Shearwater. Pedro Geraldes

    Calonectris diomedea borealis. Pedro Geraldes

    O Verão abate-se sobre o Algarve em todo o seu esplendor. Para muitos é chegado o tempo das férias de Verão, e a densidade populacional atinge o seu pico. Apesar de longe do frenesim da muitas zonas costeiras do Sul da Europa, muitas cidades e vilas multiplicam os seus ocupantes. Mas Agosto traz também a Nortada, e fenómenos de afloramento costeiro que ocasionalmente envolvem a costa Ocidental numa intensa névoa. De volta ao mundo das aves, claramente algumas delas estão já em trânsito. Migradores precoces como o Rouxinol-pequeno-dos-caniços, o Picanço-barreteiro, ou o Papa-figos estão já em viagem para Sul. Milhafres-pretos e Tartaranhões-caçadores chegam a Sagres em maior número. No mar, os Garajaus e o ocasionalmente um Moleiro estão já de regresso a Sul, e as Cagarras são abundantes, flutuando na brisa calma, sob os tons quentes do pôr-do-sol.

  • SEP - Subalpine Warbler. Jose Manuel Armengod

    Sylvia cantillans. Jose Manuel Armengod

    É altura de partir. Acentua-se a diversidade e dinâmica das aves e seus movimentos, enquanto a maioria dos veraneantes abandona o Algarve depois de merecidas férias, regressando a casa para mais um ano escolar. A tão esperada migração outonal está de volta, e os viajantes de longa-distância concentram-se na península de Sagres. O mês de Setembro testemunha o grosso da passagem de passeriformes migradores transaharianos, e nesta altura os vales costeiros enchem-se de Felosas e Papa-moscas, aguardando a sua hora, esperando pelo ocaso, para abraçarem um nova etapa na sua viagem sob a protecção do manto nocturno. Aves como a Alvéola-amarela e o Chasco-cinzento dominam os campos abertos, e os arbustos estão repletos de Felosas-musicais. Águias-calçadas e Bútios-vespeiros formam bandos sobre Sagres, e a aumenta diversidade de espécies de aves de rapina. Espécies escassas como o Falcão-da-raínha ocorrem regularmente. Borboletas como a Borboleta-do-Medronheiro ainda estão presentes. No mar, Paínhos-casquilhos e Pardelas-de-barrete encontra-se também presentes, e uma saída pelágica pode proporcionar uma boa experiência de observação de aves.

  • OCT - Griffon Vulture. Rob Zweers

    Gyps fulvus. Rob Zweers

    E mais está para vir. Em Outubro, a abundância e diversidade de aves de rapina atinge o seu auge. Os primeiros bandos de Grifos chegam a Sagres, e é altura do pico do passagem das Águias-cobreiras. Dias com mais de 10 espécies de rapinas presentes na península são frequentes. Alguns destes dias ficam como memoráveis. Apesar de a maioria dos passeriformes migradores transaharianos ter já partido, alguns ainda se encontram por cá. E partir de meados de Outubro, os passeriformes invernantes começam a chegar uma vez mais. Grandes números de Piscos-de-peito-ruivo, Toutinegras-de-barrete-preto, Fringílideos, Tordos e Trigueirões vêem de Norte, engrossando em muitos casos as populações residentes. Nas zonas húmidas, aves aquáticas efectuam paragens antes de rumar à costa Africana. No mar, a migração continua também, com Moleiros-grandes, Alcatrazes e Cagarras em passagem. à medida que mais e mais aves chegam, o turismo colapsa e a época baixa instala-se, sorrateira. Os estabelecimentos sazonais fecham portas. Outro viajante alado que cruza Sagres aos milhões é a libélula Sympetrum fonscolombii, que vem do mar em direcção a Norte, num espectáculo impressionante. A borboleta Bela-dama Vanessa cardui chega também à região em maior número. Outubro traz também as primeiras chuvas, e com elas uma nova vida, onde anfíbios e algumas flores silvestres prosperam, e algumas aves tiram partido do boom de insectos subsequente. No entanto, a instabilidade meteorológica pode por vezes estragar o festim migratório, pois afecta a afluência de migradores à península. Afinal de contas, chegou o Outono.

  • NOV - Northern Gannet. Nuno Barros

    Morus bassanus. Nuno Barros

    As aves invernantes chegam agora em massa. Piscos-de-peito-ruivo, Toutinegras-de-barrete-preto, Fringílideos, Tordos e Trigueirões dominam agora os vales costeiros, e os Abibes e Petinhas-dos-prados estão de volta e já instalados nos campos. Mesmo os migradores mais tardios partem ao longo do mês. Grifos, Águias-cobreiras, Águias-d’asa-redonda, Tartaranhões-azulados e Milhafres-reais ainda chegam a Sagres, mas serão os últimos a passar. A maioria das limícolas alimenta-se já nas zonas húmidas. No mar, todas as Cagarras encontram-se já noutras paragens, mas os Alcatrazes passam para Sul aos milhares. As temperaturas são agora mais baixas, normalmente os 10 e 20 °C, e chove com alguma frequência. No entanto, alguns Novembros podem ser bastante solarengos. Como muitos migradores ainda estão de passagem, e a maioria dos invernantes estão já a chegar, este é um mês de grande abundância e diversidade de aves. Consoante as condições climatéricas e disponibilidade de alimento mais a Norte, raridades como o Ganso-de-faces-pretas, a Felosa-bilistada, ou Escrevedeira-das-neves podem ocorrer em alguns anos, assim como visitantes regulares mas em número flutuante como o Lugre ou o Dom-fafe. De volta às ruas, tudo está novamente vagarosos e recolhido. O penetrante odor a lenha a arder nas lareiras rodopia no vendo frio, e aquele sentimento de invernia instala-se.

  • DEC - Gaivota de cabeça preta. Pedro Geraldes

    Larus melanocephalus. Pedro Geraldes

    Dezembro é o mês mais chuvoso do ano, no entanto dias tempestuosos alternam com outros bastante agradáveis e luminosos. Ocasionalmente, borboletas como a Lasiommata megera ou a Colias croceuspodem ainda ser encontradas. Algumas Armérias estão ainda em flôr, e flores como o Capuz-de-frade aparecem nos campos onde se alimentam Abibes, Alvéolas-brancas, Lavercas, Fringilídeos, e por vezes pequenos números de Sisões. É tempo de procurar algumas aves mais escassas como a Petinha-de-Richard, o Melro-de-colar ou a Ferreirinha-alpina. Os Rabirruivos-pretos estão um pouco por toda a parte. Em alguns anos, espécies de gaivotas raras ou escassas como a Gaivota-hiperbórea podem procurar abrigo nos portos de pesca, onde se alimentam alguns Garajaus-comuns invernantes. As zonas húmidas estão de novo fervilhantes de limícolas, patos, gaivotas e outras aves aquáticas. Dias limpos podem ser uma agradável experiência na Lagoa dos Salgados, onde por vezes se observam Gaivotas-de-cabeça-preta e Gaivotas-de-Audouin em dispersão, para além das aves residentes, como o Caimão. Os Alcatrazes invernantes alimentam-se perto da costa, e as falésias do Sudoeste e os seus moradores selvagens enfrentam a aspereza do mar revolto. O Inverno chegou.


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