A migração outonalA dinâmica da migração de aves no SW de Portugal

migração outonalAs aves chegam e partem. Milhões de aves passam pelo extremo SW Europeu, especialmente aquando o período pós-nupcial. Durante o final do Verão e Outono, a pequena vila de Sagres torna-se a capital da observação de aves em Portugal. Saiba porquê.

Porquê Sagres?

Para além das aves residentes, nidificantes e invernantes, o fenómeno ornitológico mais relevante do SW Português será seguramente a migração pós-nupcial, que decorre sensivelmente entre meados de Agosto e finais de Novembro. Esta é particularmente visível na península de Sagres. A península funciona como uma janela aberta para um movimento de aves em larga escala ao longo de todo o país, que devido à sua localização geográfica, concentra uma elevada abundância e diversidade de aves migradoras.

Estes migradores são sobretudo aves de rapina e passeriformes que empreendem viagens fascinantes entre os seus territórios de nidificação na Europa e os seus territórios de invernada a sul do deserto do Sahara, e também indivíduos dispersores oriundos de populações mais a norte na Europa.
A linha de costa e os vales costeiros encaminham estas aves para o extremo SW de Portugal, onde se congregam. A abundância e diversidade das aves que atingem a península é altamente dependente de fenómenos meteorológicos, tanto no local, com a montante.

A partir de Sagres, os migradores trans-saharianos podem seguir para Este ao longo da costa Sul, presumivelmente até ao Estreito de Gibraltar, onde podem atravessar para o continente Africano cruzando a menor área de mar possível. Podem também arriscar uma viagem de cerca de 400 km sobre mar aberto a partir de Sagres, apesar de esta ser uma travessia onde muitos podem não conseguir ter sucesso. Sobre o mar, as aves terrestres dificilmente se conseguem alimentar, e não podem parar de voar. Por outro lado, as aves planadoras não possuem o suporte elevatório das correntes térmicas ascendentes, pois sobre a água estas não se formam. Outro destino possível, especialmente para as aves dispersoras invernantes, é o regresso em dispersão para Norte, Este ou NE, uma vez que aqui a terra “acaba”. As águas que rodeiam o Cabo de São Vicente representam também uma rota migratória importante para as que viajam no Atlântico Este ou entre este e o Mar Mediterrâneo.

Muitas das aves que chegam a Sagres são juvenis ou imaturos, ou seja, migradores inexperientes, que se desviaram do seu rumo preferencial pelo Estreito de Gibraltar. Por esta razão, Sagres pode ser vista do ponto de vista ornitológico, como um local de congregação de aves perdidas, onde quase tudo pode acontecer, e onde é sempre preciso estar alerta para a possibilidade de encontra aves de espécies escassas ou raras.

As condições meteorológicas influenciam grandemente a afluência de migradores à península. Factores como a chuva, e especialmente a força e direcção do vento, tanto em Sagres como mais a Norte ou NE (e NW para as aves marinhas), condicionam as chegadas e partidas da península, contribuindo para que cada dia seja único. Ventos persistentes do quadrante Este no Sul podem arrastar migradores oriundos de Gibraltar, e ventos de Sul no Estreito fazem com que aves que não conseguiram efectuar a travessia possam eventualmente aparecer em Sagres. No entanto em dias de chuva ou vento intenso na península, a abundância de aves baixa consideravelmente, apesar da diversidade se poder manter. quando o tempo limpa depois de alguns dias de condições adversas, a actividade aumenta abruptamente, para regozijo do observador.

A migração de Primavera pode trazer algumas surpresas, mas na sua generalidade não é tida como tão entusiasmante como a que ocorre no período pós-nupcial. Nesta altura as aves tendem a viajar para Norte numa frente mais alargada, não sendo canalizadas ao longo da costa e vales costeiros pelos ventos dominantes do quadrante Norte que ajudam à sua concentração no SW Português no final do Verão e Outono. No entanto Sagres é uma área historicamente bastante inexplorada pelos observadores de aves durante a Primavera, e um número interessante de migradores pode ser aqui observado entre Março e Maio, especialmente quando ventos de Este varrem o Sul da Europa.

Aves planadoras

As aves planadoras (Aves de rapina, cegonhas, algumas garças e alguns corvídeos) são o estandarte da migração outonal em Sagres. Todas as espécies de aves de rapina que já foram observadas em Portugal foram já registadas em Sagres durante este período. Estas são maioritariamente aves juvenis e imaturas que podem formar bandos, muitas vezes mistos, de dezenas ou por vezes centenas de indivíduos, circulando em correntes térmicas ascendentes. Muitas das aves presentes estarão também a efectuar movimentos de dispersão. Uma das particularidades da observação de aves de rapina em Sagres, é que estas normalmente cruzam a área a altitudes relativamente baixas, pelo menos quando comparadas com os padrões do Estreito de Gibraltar.

As espécies mais abundantes são o Grifo Gyps fulvus, a Águia-calçada Aquila pennata, a Águia-cobreira Circaetus gallicus e a Águia-d’asa-redonda Buteo buteo, seguidas em número total pelo Búteo-vespeiro Pernis apivorus, pelo Milhafre-preto Milvus migrans e pelo Gavião Accipiter nisus. Aves como o Abutre-do-Egipto Neophron percnopterus, a Cegonha-preta Ciconia nigra, o Tartaranhão-caçador Circus pygargus, o Tartaranhão-azulado Circus cyaneus, a Ógea Falco subbuteo e o Milhafre-real Milvus milvussão igualmente visitantes frequentes. Alguns espécies menos comuns como o Abutre-de-Rüppell Gyps rueppellii, a Águia-de-Bonelli Aquila fasciata, a Águia-imperial Aquila adalberti ou o Falcão-da-raínha Falco eleonorae são visitantes regulares, ainda que bastante mais escassos. Verdadeiras raridades como o Tartaranhão-pálido Circus macrourus ou o Falcão-de-pés-vermelhos Falco vespertinus formam avistados ocasionalmente em anos recentes.

Todas estas espécies têm diferentes épocas e picos de passagem. Enquanto os movimentos de Grifos têm o seu pico em Outubro e continuam ao longo de Novembro, outras espécies como o Búteo-vespeiro têm o seu pico de passagem em Setembro. Os Milhafres-pretos são as primeiras rapinas migradoras a atingir a península (alguns mesmo em Julho), com picos de passagem em finais de Agosto e inícios de Setembro. As Águias-calçadas surgem às dezenas entre meados de Setembro e meados de Outubro, enquanto as Águias-cobreiras surgem em grande número em Outubro e continuam a ser abundantes ao longo de Novembro, altura em que a passagem de Águia-d’asa-redonda é mais evidente.
Não há dois dias iguais em Sagres nesta época do ano, e entre meados de Setembro e inícios de Novembro, é frequente registar mais de uma dúzia de espécies ao longo do dia na Cabranosa, o ponto de observação de rapinas por excelência.

Passeriformes

A migração de passeriformes é outro dos destaques da migração outonal, ainda que largamente negligenciada ou relegada para segundo plano. Milhões de pequenas aves passam por Sagres em direcção à África tropical, concentrando-se nos matos arbustivos e vales costeiros. Quando cai a noite, todas estas silhuetas levantam vôo, mergulhando o seu futuro no crepúsculo, numa demonstração da força e beleza naturais. As espécies mais abundantes aparentam ser a Felosa-musical Phylloscopus trochilus, o Papa-moscas-preto Ficedula hypoleuca, o Chasco-cinzento Oenanthe oenanthe e a Alvéola-amarela Motacilla flava, seguidos em abundância pelo Papa-moscas-cinzento Muscicapa striata, o Rabirruivo-de-testa-branca Phoenicurus phoenicurus, o Cartaxo-nortenho Saxicola rubetra e a Petinha-das-árvores Anthus trivialis. Em alguns dias em Sagres, há arbustos repletos de pequenos migradores.
Muitas outras espécies de migradores utilizam a área como área de paragem antes da travessia ou continuação da viagem. Migradores mais escassos com a Felosa-de-Bonelli Phylloscopus bonelli, o Pisco-de-peito-azul Luscinia svecica ou Sombria Emberiza ortolana são algumas das espécies que podem passar despercebidas. É sempre bom ter em mente a possibilidade de avistar alguma raridade, pois aves como a Petinha-de-garganta-ruiva Anthus cervinus, o Papa-moscas-pequeno ou o Rabirruivo-mourisco Phoenicurus moussieri foram já observados.

Enquanto estes migradores trans-continentais passam sobretudo em finais de Agosto, Setembro e inícios de Outubro, mais tarde na época – a partir de Outubro e sobretudo da segunda metade deste, e durante o mês de Novembro – o elenco de passeriformes em Sagres muda de forma drástica.
Quando a maioria dos migradores trans-saharianos se encontra já em África, chega, oriundo de latitudes mais elevadas, um grande número aves de espécies comuns, que fugiram à escassez do Outono no Norte da Europa e seguiram para Sul em busca de maior disponibilidade de recursos alimentares. Em muitos casos este contingente invernante vem engrossar as fileiras das populações residentes. Estas aves são sobretudo Fringilídeos, Tordos, e Trigueirões. As espécies mais comuns entre estes viajantes são a Alvéola-branca Motacilla alba, a Petinha-dos-prados Anthus pratensis, o Pisco-de-peito-ruivo Erithacus rubecula, a Toutinegra-de-barrete-preto Sylvia atricapilla, o Tordo-comum Turdus philomelus, o Tentilhão-comum Fringilla coelebs, o Pintassilgo Carduellis carduellis e o Trigueirão Emberiza calandra. Alguns visitantes mais escassos incluem a Petinha-de-Richard Anthus richardi, o Melro-de-colar Turdus torquatus e a Ferreirinha-alpina Prunella collaris.

Aves marinhas

As águas em redor do Sudoeste Português constituem uma importante rota-migratória para aves marinhas em trânsito entre as suas colónias de nidificação e territórios de invernada, e também para juvenis e imaturos em dispersão. Particularmente depois de períodos de ventos fortes e/ou persistentes do quadrante Oeste, as aves marinhas pelágicas tendem a ser empurradas para junto de terra, oferecendo um das mais impressionantes perspectivas sobre o fenómeno migratório. A observação de aves marinhas no Cabo S. Vicente nos primeiros momentos da manhã pode ser uma experiência memorável.

O Alcatraz Morus bassanus é a espécie mais numerosa que cruza o Cabo, especialmente a partir de meados de Outubro. Em alguns dias, o fluxo de passagem é na ordem das várias centenas ou mesmo poucos milhares por hora. Também bastante abundante é a Cagarra Calonectris diomedea, a ameaçada Pardela-balear Puffinus mauretanicus, a Gaivota-d’asa-escura Larus fuscus e o Moleiro-grande Stercorarius skua. Outras espécies regulares a partir de terra, na sua divida altura, ainda que bastante menos comuns, são a Pardela-preta Puffinus griseus, a Gaivota-de-Audouin Larus audouinnii, a Gaivota-de-cabeça-preta Larus melanocephalus, o Moleiro-do-Ártico Stercorarius pomarinus, o Moleiro-pequeno Stercorarius parasiticus, o Garajau-comum Sterna sandvicensis e a Andorinha-do-mar-comum Sterna hirundo.
Espécies como a Pardela-de-barrete Puffinus gravis, a Alma-de-mestre Hydrobates pelagicus e o Paínho-casquilho Oceanites oceanicus são também relativamente abundantes (especialmente durante o Verão), mas requerem uma saía pelágica. Os Alcídeos como a Torda-mergulheira Alca torda ou o esquivo Papagaio-do-mar Fratercula arctica são migradores tardios, atravessando a área especialmente em Novembro e Dezembro. Raridades como a Gaivota-de-sabine Larus sabini ou o Moleiro-rabilongo Stercorarius longicuadus formam já observados.

Aves nocturnas

A migração de aves nocturnas pode passar largamente despercebida. Contudo espécies como o Bufo-pequeno Asio otus, a Coruja-do-nabal Asio flammeus, o Noitibó-da-Europa Caprimulgus europaeus, o Noitibó-de-nuca-vermelha Caprimulgus ruficollis, ou o Mocho-pequeno-d’orelhas Otus scops ocorrem certamente todos os anos em Sagres, apesar de em número reduzido e de difícil observação, pois movem-se após o ocaso. Uma visita a áreas abertas e linhas de árvores após o crepúsculo é a melhor abordagem para tentar observar estas aves, ainda que nunca com sucesso garantido.

Porquê migrar?

A migração é uma estratégia evolutiva que as aves (neste caso) utilizam afim de maximizar o sucesso da espécie, potenciada pela disponibilidade de alimento. Existem muitas formas de migração. Algumas das mais reconhecidas são a migração em altitude (de áreas mais altas para áreas mais baixas), dispersões progressivas (onde as aves se vão movimentando continuamente em busca de alimento), e migração de longo curso (onde as aves levam a cabo uma grande viagem entre os territórios de nidificação e os de invernada, em muitos casos efectuando dispersões a partir daí). Numa primeira impressão, esta última aparentemente desafia a razoabilidade, especialmente para pequenos passeriformes. Então qual a razão de as aves terem começado a efectuar estas maratonas?

Durante a última glaciação, muitos dos antecessores das actuais espécies que nidificam na Europa tinham ficado encurralados em África, pois a maior parte da Europa encontrava-se coberta de gelo. Quando o gelo começou finalmente a recuar, os números de aves começaram aumentar, e consequentemente os recursos alimentares devem ter começado a escassear e a competição pelos mesmos a aumentar. Contudo na Europa, havia alimento disponível e as comunidades de plantas e animais aumentavam e diversificavam-se. Após o degelo, com abundância de água doce e dias longos com muitas horas de sol, os insectos prosperavam. Isso significava uma farta reserva proteica, bastantes horas para caçar, e pouca energia despendida para encontrar alimento. Para as aves do Sul, a migração era a resposta natural. Era simplesmente uma oportunidade demasiado vantajosa para ser desperdiçada.

Aquelas que conseguissem sobreviver à viagem, teriam oportunidade de criar mais descendência, e de esta estar igualmente bem preparada para sobreviver à viagem de regresso. Então, eventual e gradualmente, estes descendentes migradores começaram a ser positivamente seleccionados. Ainda que a migração seja fatal para muitas aves individualmente, no panorama geral revelava-se uma estratégia benéfica para a espécie. Quando os dias começam a minguar e o alimento a escassear a Norte, a migração começa uma vez mais, desta vez com as aves a partirem para Sul para tirar partido do boom de insectos e outros recursos na África tropical, onde por esta altura termina a época das chuvas.

Posto isto, em vez de consideramos as aves nificantes na Europa como aves Europeias que invernam em África, talvez uma perspectiva mais correcta seja encará-las como aves originalmente Africanas que em tempos começaram a tirar partido de melhores oportunidades em terras Europeias. Qualquer que seja a perspectiva, não deixe que este fenómeno natural tão amplo quanto remoto lhe passe ao lado.


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